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segunda-feira, 11 de março de 2013
Doodle de hoje, em homenagem a Douglas Adams
Há melhor maneira de se discutir a humanidade do que pela arte? José Saramago faz isso com maestria em seus livros, sempre nos deixando com a sensação de que há algo terrivelmente errado com a natureza humana. Arrisco a dizer que Douglas Adams compartilha dessa visão, porém seus livros tratam do caso com um sarcasmo e ironia que destoam da típica fleuma inglesa.

Hoje, se estivesse vivo, Douglas Adams faria 61 anos. Ele é o autor de uma das mais famosas séries de ficção científica do mundo. A coleção “O guia do mochileiro das galáxias”, apesar do que sugere o nome, é mais do que uma história de ficção científica. É uma paródia sobre a humanidade, suas dúvidas, preocupações, hábitos e pensamentos. Adams conta a história, que começa com a destruição da Terra, de uma maneira simples e direta. Não usa um vocabulário culto e sim uma linguagem simples, com frases curtas, permeadas de gírias e expressões correntes na língua oral. Na verdade, o livro é escrito como se fosse uma conversa informal.
O guia que dá o nome ao primeiro livro é o ícone principal desta que é conhecida como a “trilogia de quatro livros”. A inscrição em letras garrafais que traz na capa - “NÃO ENTRE EM PÂNICO” - já adianta o tom que encontramos em toda a obra. Sendo um “livro dentro do livro”, o Guia funciona como uma ferramenta para o autor descrever este universo que existe na obra.
Um dos principais traços de sua escrita é a constante conversa com o leitor. Por vários momentos o narrador para a história que está narrando para invocar o leitor, geralmente no intuito de quebrar as expectativas que possam estar sendo construídas na leitura, como logo no início do primeiro livro:
... uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.Esta não é a história desta garota. (O guia do mochileiro das galáxias, p. 14)
Este recurso às vezes adianta o final de algum episódio, como se o autor estivesse se divertindo em desfazer o suspense ou a expectativa que o leitor possa ter. Adams debocha do leitor descaradamente em várias passagens, como notamos no fim de uma das pausas do narrador, após já ter contado o final de toda a cena posterior: “Para manter um mínimo de suspense, não diremos por enquanto a quem pertence o braço que será machucado. Esse fato pode ser mantido em segredo sem qualquer problema por ser absolutamente irrelevante.” (Id, p. 121)
Há, no entanto, um caráter filosófico na obra. Desde o início, o livro propõe-se a discutir a questão sobre a vida, o universo e tudo mais. Ainda que leve a discussão num tom de piada, Adams nos faz refletir sobre o sentido da existência. É uma proposta corajosa a de abordar o tema mais profundo da filosofia com o humor. O autor faz um humor inteligente, inusitado, colocando os ratos como os detentores de uma hiper-inteligência. Como questionadores, constroem um computador capaz de dar conta de responder a esta dúvida que atormenta (a maioria d)os seres vivos pensantes.
Já o grupo de alienígenas Golgafrinchianos é uma crítica direta à sociedade, já que eles são os antepassados diretos dos seres humanos. Esse grupo foi expulso do seu planeta de origem por ser considerado “de pouca utilidade” lá. É representado por cabeleireiros, executivos de relações públicas e pesquisadores de opinião, entre outros. Há ainda os Krikkitianos, raça xenófoba que quer destruir tudo que seja diferente deles e os Vogons, com os quais critica a burocracia.
Os políticos também não escapam de seu foco de atenção. O Presidente da Galáxia é apenas uma figura pública para desviar a atenção de onde está realmente o poder. Apenas seis pessoas sabem onde o poder está realmente. O presidente precisa ser uma pessoa polêmica e ter características como a excentricidade e uma personalidade irritante, porém fascinante. O político é na verdade apenas um pop-star para distrair as pessoas enquanto o poder é exercido sem maiores perturbações.
As descrições que o autor traz no livro são inabituais e forçam a imaginação do leitor, criando imagens fantásticas ou impossíveis, como vemos num dos trechos mais excêntricos da série:
Se você pegasse dois David Bowies e colocasse um David Bowie em cima do outro, depois colocasse um David Bowie na extremidade de cada braço do David Bowie que estava por cima e daí cobrisse tudo com um roupão de praia sujo, você teria algo que não seria exatamente parecido com John Watson, mas aqueles que o conheciam na certa o julgariam assombrosamente familiar.Ele era alto e desengonçado. (Até mais, e obrigado pelos peixes, p. 160)
Há várias referências a personagens e itens da cultura pop contemporânea, talvez um reflexo da origem da obra, uma série da rádio BBC. A obra sem dúvida deixou uma legião de fãs pelo mundo. A comédia de Douglas Adams consegue tocar em “feridas abertas” de um modo que, ao mesmo tempo em que nos faz rir, nos incita à reflexão. Mesmo sabendo que há algo terrivelmente errado com a humanidade, seus costumes, hábitos e relações de poder, é sempre um alívio poder contar com a arte para nos fazer enxergar e provocar reflexões.

E aí? Animados pra começar a ler a série?